Despedida de Tite do Guarani completará 30 anos

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Contra o Grêmio, no Olímpico, Tite retorna mais uma vez aos gramados

O que há de comum entre o técnico do Brasil na Copa do Mundo e o Guarani? A relação ultrapassa as quatro linhas do Brinco de Ouro e tem grande proporção na vida do ex-volante e vitorioso treinador. A despedida de Tite do Bugre completa 30 anos em setembro e o Portal CB relembra parte desta trajetória.

NA TELA DA BAND

Adenor Leonardo Bacchi, o Tite, chegou em Campinas para jogar no Guarani em junho de 1984 após passagem conturbada e repleta de lesões na Portuguesa.

Acompanhado da fiel escudeira Rose, estreou em uma derrota para o Santos, na Vila Belmiro, na primeira semana de julho e no dia 8 atuou como titular diante do Santo André.

Logo na primeira aparição como titular do Bugre, Tite voltou a sofrer com um antigo problema: lesões. Sentiu um problema no joelho esquerdo e ficou sem jogar quase 14 meses.

O rompimento do ligamento cruzado exigiu procedimento cirúrgico e Tite, então com 23 anos, vivenciou o primeiro drama em Campinas. O apartamento dele, localizado próximo ao Brinco de Ouro, não tinha elevador. Era preciso encontrar uma maneira de subir as escadas, o que tornou a rotina da recuperação mais cruel.

Tite recebia apoio dos companheiros da época. O ex-ponta-direita Catatau, um dos líderes do grupo, realizava jantares e eventos sociais em família para ajudar Tite a se enturmar e aliviar o estresse da recuperação. Mesmo assim, o futuro técnico ponderava a possibilidade de encerrar a carreira.

Tite se concentra antes da partida entre Corinthians e Boca Juniors, válida pela final da Libertadores-2012. Foto: Daniel Augusto Jr.

No dia 23 de novembro de 1985, na vitória do Guarani contra o Botafogo, em Ribeirão Preto, por 1 a 0, Tite voltou aos gramados. Entrou no segundo tempo na vaga de Tosin e recuperou a posição de titular três partidas depois, no empate contra o Marília.

Terminou a temporada de 85 confiante e foi escolhido por Lori Sandri no ano seguinte para começar a partida diante do XV de Piracicaba, no dia 2 de fevereiro, na abertura do Paulistão de 86. Lori, inclusive, avançou o posicionamento de Tite e o transformou em um meia-atacante.

Mas na partida contra o Novorizontino, dia 23 de fevereiro, um pisão em falso no buraco do campo deixou Tite amargurado. Uma nova lesão no mesmo joelho e uma nova cirurgia agendada.

Tite não desistiu. Acompanhado de Barbieri no departamento médico, deu a volta por cima e retornou após seis meses. No dia 7 de setembro de 86, após a chegada do técnico Carlos Gainete Filho, Tite estava relacionado para enfrentar o Vasco da Gama, em São Januário, no Rio de Janeiro.

Partida inesquecível.

O sistema de som de São Januário anunciava a escalação do Bugre. Robinson, Marco Antônio, Ricardo Rocha, Gilson Jáder, Zé Mário, Barbieri, Boiadeiro, Catatau, Vágner, João Paulo e… Tite!

No primeiro toque na bola, contra-ataque do Guarani e cruzamento na área para Tite cabecear e abrir o placar: vitória por 1 a 0 com gosto de recomeço para o volante do Guarani.

Na partida seguinte, diante do Náutico, nova vitória por 1 a 0, mas sem comemorações. Tite havia saído no intervalo, sentindo dores no outro joelho, o direito, e o médico Cézar Cezarone praticamente descartou sua volta aos gramados naquele ano.

Por sorte, a lesão não foi tão séria. Uma artroscopia resolveu o problema e, no início de 1987, quando, pela desordem típica do futebol brasileiro, disputou-se a segunda fase do Brasileirão de 1986, Tite retornou em vitória sobre o Grêmio, em pleno Olímpico, por 1 a 0.

Tite disputa bola com Careca nos tempos de GuaraniEm campo, havia a técnica de Barbieri e Marco Antônio Boiadeiro, além da vitalidade de Tosin. Ricardo Rocha, trazido do Santa Cruz, dava segurança à defesa, e Zé Mário era destaque na lateral esquerda. Na frente, Catatau voava pela ponta direita. João Paulo, cria da base, impressionava pela habilidade na esquerda. Como centroavante, a joia Evair, que, aos 21 anos, já empilhava gols antes de virar ídolo do Palmeiras e chegar à Seleção Brasileira.

Ainda que fosse difícil achar espaço em uma equipe tão azeitada, Tite conseguiu. Atuou em vários jogos daquela reta final de Brasileirão, a maioria como titular. A formação mais frequente o colocava como volante recuado, um protetor da defesa.

A sequência de partidas estreitou laços com o grupo e o colocou em contato mais frequente com Pedro Pires. Sempre didático, o preparador era alvo das perguntas curiosas de um pequeno grupo de jogadores, Tite incluído. Queriam saber mais sobre métodos de treinamento.

A curiosidade de Tite com cada treino, cada movimento do “mestre”, levou o gaúcho também à sala de aula. Com o goleiro Wilson Coimbra, o Macarrão, foi aluno do curso de técnica desportiva em que Pedro Pires era um dos professores. As aulas ocorriam nas segundas e sextas à noite e estenderam-se por um ano. Ao fim da passagem pelo Guarani, Tite se formou em Educação Física pela PUC de Campinas.

Enquanto isso, contrariando as expectativas, o Guarani chegou à final do Campeonato Brasileiro. Na primeira partida da decisão com o São Paulo, no Morumbi, houve empate em 1 a 1. Em 25 de fevereiro de 1987, no Brinco de Ouro, Tite disputou o jogo mais importante de sua carreira, o segundo da decisão, em que foi escalado como titular ao lado de Tosin e Boiadeiro. O empate em 1 a 1 levou a decisão à prorrogação e, no tempo extra, Tite foi substituído por Vagner.
O fim da prorrogação se aproximava e Tite, exultante, acompanhava os minutos finais. Conversava com Vagner à beira do campo e distraiu o olhar por um instante. Quando levantou a cabeça para fitar o campo novamente, viu Careca na área, preparando um foguete de pé esquerdo que empatou a prorrogação a um minuto do final. Nos pênaltis, o São Paulo levou a melhor e acabou com o sonho do título brasileiro.
Passada a frustração, o Guarani seguiu o rumo na temporada 1987, com Tite participando de jogos do Campeonato Paulista e da Libertadores. O fantasma das lesões, porém, retornaria em julho.
Mais uma vez, um buraco no gramado o vitimou. Contra o Mogi Mirim, Tite sofreu uma entorse no joelho direito ao pisar em uma parte irregular do campo. Dali em diante, nunca mais teve sequência pelo clube.

Tite entrou em campo pela última vez com a camisa do Guarani em 14 de setembro de 1988, quando substituiu Albéris na derrota para o San Lorenzo que tirou o clube da Libertadores daquele ano. Àquela altura, sentia dores nos joelhos a cada treino e optou por encerrar a vida de volante para iniciar a vitoriosa carreira de treinador.

 

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